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número seis.

nascer do sol

primeira vez viajando em um teco teco.

seis degraus para subir no avião.

seis centímetros entre a cabeça do moço mais alto até o teto do avião.

seis pessoas estão amedrontadas com o tamanho do avião.

seis minutos é o tempo que demora para que os passageiros se acomodem no avião.

seis pontos na escala richter é o como eu sinto o mundo na hora da decolagem do avião.

seis segundos é o tempo que eu levo pra entender que o negócio gigante que atrapalha minha visão é a asa do avião.

seis quilos, tenho certeza, é o quanto eu peso a mais do que o próprio avião.

quando eu olho pela janela, apesar daquele trambolho gigante e nada fotogênico que fica exatamente no meio da minha visão, são seis piscadas necessárias para eu entender que realmente estava vendo aquilo.

aquele nascer do sol.

seis vidas inteiras em troca de um nascer daqueles.

 

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os olhos dele.

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quatro de junho de dois mil e dezesseis.

almoço em olinda, com meu chefe e outra colega de trabalho. polvo com molho de mostarda, ou algo do tipo.

restaurante fofo demais. cidade fofa demais.

depois de uma semana e meia viajando – metade do tempo a lazer e a outra metade a trabalho -, eu já estou cansada. muito cansada.

tão cansada que quero voltar pra casa agora. quero passar pelo menos o domingo deitada embaixo de mil cobertas no tenebroso frio que está fazendo em santa catarina nessas épocas.

até tento antecipar o vôo, mas a taxa de mil e oitocentos reais me faz desistir da ideia.

procuro um hostel por recife pra ficar e acabo encontrando o “ramon”, um hostel bar hermoso y muy buena onda, cujos donos são argentinos e cujo objetivo é compartilhar a cultura latinoamericana. imaginem se eu não me apaixono por lá, não é?

me acomodo no quarto enquanto converso com um sanluizeño, e logo deito pra tirar um bom cochilo.

lá pelas sete da noite, decido levantar e ir dar uma voltinha pela beira mar da capital pernambucana, afinal, eu só tenho essa noite por lá.

o tempo ta chuvoso, mas decido ir mesmo assim.

é perigoso? pergunto pro moço do hostel. ele me diz que não.

traço um mapa mental do caminho que tenho que percorrer, passando pela pracinha ‘x’ e chegando na parte mais movimentada da beira mar.

eu gosto muito disso. muito mesmo. disso de dar voltas aleatórias pela cidade, só caminhando, observando e pensando.

a tal da pracinha, por causa do tempo chuvoso da cidade, não está funcionando ao seu esplendor. mesmo assim, alguns moços me oferecem pacotes de viagem, cangas, e diversos outros souvenirs, obtendo um ‘não, obrigada’ como resposta.

na beira mar, a calçada é larga. a rua está um pouco deserta, mais deserta do que eu gostaria.

de quinze em quinze metros tem barraquinha de comida. daqueles tipo quiosques, sabe?

depois de ir e voltar algumas vezes, decido parar em um dos quiosques pra comer uma coxinha. tenho contados quatro reais no bolso. peço a coxinha de quatro reais pro moço e me delicio com uns tantos sachês de ketchup derramados sobre o salgado.

eu costumo comer rápido. em quatro ou cinco mordidas rápidas, já estou quase terminando meu delicioso banquete da noite.

enquanto como, sinto algo de esquisito no ar. coloco os últimos litros de ketchup no último pedacinho da coxinha e levo a mistura à boca ainda sentindo a sensação de ter algo errado por aí.

é aquela sensação de ter alguém me observando, sabe? o que acaba fazendo com que eu olhe ao redor.

é nesse momento, que percebo os olhos dele. sinto os olhos dele.

focados em mim, eles têm uma profundidade que poucas vezes senti antes.

é como se me vissem despida. como se enxergassem somente a minha alma. somente meu esqueleto.

os olhos dele me cercam, permeando entre meus olhos e minhas mãos.

eu não consigo desviar. os olhos famintos, carregados de súplica e de desejo tiram o chão aos meus pés. sinto como se eu fosse a última pessoa no mundo.

eu percebo o que ele quer.

a coxinha.

a coxinha que eu acabei de mastigar e engolir de uma só vez.

“querido, eu não tenho mais nada pra te dar.”

falo com ele com a falha tentativa de ser entendida. a única resposta que recebo é um olhar ainda mais suplicante e carente. meu coração se despedaça.

tento catar todas as moedas soltas em todos os bolsos possíveis, chegando à inacreditável quantia de trinta inúteis centavos.

desisto daqueles olhos, levanto da banqueta em que estou sentada e decido voltar para o hostel.

o olhar ainda me acompanha.

como se não bastasse, ele ainda me acompanha. passo a passo. mais e mais súplica.

agora consigo enxergá-lo melhor. corpo magro e franzino como ninguém. pernas trêmulas que eu não entendo como aguentam o leve peso de seu corpo.

meu olhar pra ele se transforma em perdão e impotência.

“me desculpa, meu amor, me desculpa, eu não tenho mais o que te dar”. resmungo enquanto pessoas passam por mim e me olham como se eu fosse louca.

quando chegamos no próximo quiosque, ele dá umas latidas fracas.

eu respondo com mais resmungos de perdão e ele acaba desistindo de mim.

continuo meu caminho com uma sensação de culpa pesando-me as costas.

 

 

fazem trinta e nove dias desde essa noite.

aqueles olhos ainda estão encravados em mim. será que eles ainda existem? será que eles ainda podem suplicar por algo?

será que eles ainda abrem?

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capacidade de síntese em fortaleza.

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eu gosto de viajar sozinha. não gosto de marcar rolês com os outros. mentira, gosto sim. mas só quando esses outros tem o mesmo ritmo que eu. e pra descobrir se tem o mesmo ritmo que eu ou não, só marcando rolês com os outros.

é isso, né? fiquei confusa.

enfim. marquei rolê pra praia com desconhecidos e me arrependi. lá pelas tantas, decidi jogar tudo pro ar e dar uma voltinha no centro de fortaleza.

mapa na mão, celular com a carga pela metade na bolsa e um punhadinho de reais (meu dinheiro voa, não é possível!). lá fui eu, toda mulambenta, dar uma volta sem rumo exato por alguns pontos que apareciam marcados no mapa impresso do google maps que o hostel tinha me dado.

passei pelo calçadão, pela catedral, pelo mercado central e me perdi. depois me achei de novo… tava querendo achar um centro cultural que se chama “dragão do mar”, mas não tava encontrando o bendito do moço.

até que de repente eu paro em uma esquina com uma escadaria, olho pra cima. e lá ta a placa dizendo que o lugar era por aí.

entrei sem nenhuma pretensão. “ah, deve ser tipo uma fundação cultural. meia dúzia de salas. um auditório fechado e uma pracinha.” belo engano.

de cara, uma placa com a programação do mês mostrava que no mesmo dia ia ter show de blues na praça e um teatro que eu achei que parecia legal. no dia seguinte, show de rock e batalha de hip hop acontecendo. me animei.

visitei umas salas de exposição. “perdi” umas três horas passeando pelo museu de arte contemporânea e fui me deixando caminhar pelo parque bem intuitivamente. a cada construção, amava mais o lugar.

acho foda quando os arquitetos pensam nas pessoas que vão passar pelas construções. os degraus são um pouco mais altos, mas são ótimos pra sentar com uma galera e bater um papo. as colunas da construção não servem só de sustentação, mas também de encosto. tudo é projetado pensando na ocupação desses espaços, em como os pedestres, cidadãos e turistas vão poder aproveitar o ambiente.

a palavra certa é: intuitivo. é bem isso que eu falei antes, o parque vai te levando a explorar o lugar, mesmo que despretensiosamente.

caminhei de lá pra cá, sentei em diversos lugares diferentes. fui tomar cafézinho (vulgo tapioca de café com doce de leite e sorvete e beber cajuína) e carregar meu celular. depois decidi assistir a tal da peça de teatro. curti: era engraçadinha e esquerdinha.

assisti ao show de blues enquanto tomava uma cerveja e quando acabou, voltei pro hostel.

no dia seguinte, meus planos eram ir pra praia do futuro e depois voltar pro dragão do mar. era no sábado e ia rolar show de rock.

fui pra praia de ônibus. rolou um pouco de medo pois o ônibus passa em uns lugares afastados e um pouco esquisitos, e além disso, eu tinha lido em alguns blogs que era perigoso. mas cheguei viva e entrei na barraca “santa praia” (se eu não me engano, era esse o nome). nem recomendo, nem desrecomendo. foi um lugar tranquilo, pedi uma coxinha de camarão que estava boa e tomei algumas águas de coco. queria uma cerveja, mas o dinheiro pro dia tava contadinho. dei um mergulho, fui dar uma voltinha na praia. tirei umas mil selfies com meu chapéu preferido (o único que tenho) e lá pelas quatro e meia da tarde, fui procurar um ponto de ônibus para voltar pro hostel.

pedi pro cobrador do ônibus me deixar no começo da beira mar. sabia que seria uma caminha loooonga até chegar ao hostel. mas não imaginei que seria tão longa assim.

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caminhei durante uns quarenta minutos. no sol. passei calor, mas vi algumas coisas interessantes.

passei pela feirinha da praia, encontrei o contraste entre redes grandes de fast food com restaurantes locais e praieros justo de lados opostos da rua. presenciei um flashmob gospel, esbarrei com alguns gringos e conversei com ambulantes.

pronto, nisso eu já tava quase chegando no hostel. era dia da final da champions, então tive que esperar uns bons minutos do lado de fora enquanto o voluntário que trabalhava no hostel terminava de ver as jogadas importantes do partido. no hostel, estava o voluntário brasileiro e mais dois dinamarqueses, super concentradíssimos na televisão.

fui tomar um banho rapidão e me arrumar pra voltar pela terceira vez consecutiva para o dragão do mar. a cada cinco minutos descia as escadas do hostel para o acompanhar o jogo (eu torço contra o real, e realmente não queria que cristiano e companhia levassem o título).

quando tava pela metade da prorrogação, saí do hostel e fui caminhando pelo calçadão que daria na praça. eu tinha que passar por uma passarela que passava justo por cima do show. o show era de uma banda de uma galera um pouco mais velha. pra ser bem sincera, eu não lembro muito bem da minha opinião sobre as músicas. nem me encantei, nem me desencantei.

logo perto, tava rolando uma oficina de circo. achei genial! as crianças e os adultos estavam se divertindo com pernas de pau, malabares e até mesmo fita circense. sentei em um dos degraus da praça e fiquei observando enquanto tomava minha primeira cerveja da noite.

a oficina de circo acabou, assim como a cerveja, e a banda que tava tocando não prendeu minha atenção, então fui tomar um sorvete de cupuaçu, que estava delicioso. sentei em mais um dos espaços construídos para nós e continuei apreciando o incrível clima daquele centro cultural.

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a segunda banda ia começar a tocar então fui me misturar com a plateia. a galera era bem metaleira. todos de preto, com acessórios e maquiagens rock n’ roll.

a banda tava se arrumando no palco. eram três ou quatro meninos e mais a vocalista, uma menina linda de cabelão. eles tavam com jaquetas de couro e camisas de manga longa – eu definitivamente não entendo como eles conseguiam aguentar o calor cearense com essas roupas quentes.

no momento que a menina tocou no microfone, tudo vibrou. ela cantava com uma voz gutural absurdamente maravilhosa. apesar de não ser fã de heavy metal eu fiquei hipnotizada com a banda. eles tinham uma vibração e uma sintonia que me deixaram arrepiada do começo ao fim do show.

os metaleiros na plateia iam batendo cabeça, gritando muito e elogiando a banda no final de cada música. achei legal que tinham muitas famílias assistindo ao show nada convencional. eu lembro que pensei que minha estadia por fortaleza tinha valido a pena só por assistir a aquela apresentação.

nem imaginava que isso era apenas o começo de uma noite muito mais longa. no final do show, com mais uma cerveja na mão, sentei no quarto ou quinto espaço da praça que eu estava me apoderando por alguns minutos. queria ver qual ia ser a movimentação do pessoal nos momentos seguintes.

foi então um moço veio falar comigo. ele estava vendendo uns zines que fazia – uma espécie de publicações com ilustrações e textos. achei muito bacana toda a arte do moço e decidi ficar com alguns para mim enquanto lhe dava em troca uma nota de vinte reais. a conversa foi ficando legal e o moço me levou pra conhecer algumas outras áreas da praça.

a cada cinco passos, alguém conhecido dele nos cumprimentava. foi assim que fui apresentada à quase toda classe artística de fortaleza (percebam o exagero do meu tom, por favor). o papo tava bom, a cerveja também e eu tava encantada com a possibilidade de mil conexões daquela noite.

meu dinheiro acabou e fui comprar cerveja com o cartão de crédito, que por sinal, ainda não me atrevi a olhar o extrato. quando voltei do bar, meu novo amigo estava rodeado por muitas pessoas.

fiquei tímida e fiz o que sempre faço quando a timidez me deixa sem graça: olhei o celular e fiquei mexendo nele. minha mãe tinha me ligado, então aproveitei o momento para falar com ela e não parecer incomodada com o fato de que tinha ficado sozinha de novo.

mas a galera daquela rodinha junto com meu amigo me chamou pra participar do momento. então lá fui eu ser apresentada pra mais um punhado de gente. minha apresentação era mais ou menos assim: “essa é a isadora e ela é de santa catarina” e aí eu repetia o que já tinha de cor na cabeça. tava em fortaleza há tantos dias, tinha vindo pra fazer isso isso e aquilo e estava sozinha pela cidade.

a minha historinha decorada fez com que eu conquistasse um pouquinho o pessoal. no caso, a maioria da galera era meninas e elas eram amigas de infância que não se viam há tempos, então estavam todas super animadas. o tempo inteiro, as garotas compartilhavam histórias da vida delas comigo. exemplo: primeiro porre, brigas, começo de namoro, um ou outro rolê.

achei o máaaximo! era cada história engraçada… e me peguei lembrando de momentos com as minhas amigas também.

estávamos estrategicamente posicionados na frente do bar que aceitava cartão de crédito e que vendia chope de vinho. então, fui bebericando mais umas cervejas, compartilhando mais histórias e falando sobre assuntos que eu não lembro direito.

minha noite foi basicamente isso. só isso. sem bebedeira maluca. sem descer até o chão. sem aventuras inexplicáveis.

mas foi em fortaleza. numa noite aleatória que podia não terminar em nada. eu podia ter ficado assistindo a champions. podia ter ido embora logo depois que acabou o show na praça. podia não ter dado nenhuma moral pro cara que veio falar comigo. podia não ter tomado nenhuma cerveja. podia ter dado moral pra outra pessoa e terminar a noite com outra galera. sei lá… são mil outras direções que minha noite podia ter tomado.

mas terminei a noite fortalezense (ou alencarina) com um punhado de gente interessante, divertida, iluminada e especial. terminei a noite fortalezense com fortalezenses de verdade que me acolheram na rodinha deles e que perderam os rolês deles pra me mostrar um pouco do parque, de sua noite e de suas histórias.

tem como não sair da cidade amando ainda mais os nordestinos? será que ter conhecido a galera toda foi sorte ou foi destino? eu só sei que foi uma das noites mais lindas e leves da vida.

quando a gente sai de casa sem pretensões e acaba a noite conhecendo gente foda e ouvindo histórias foda, não tem como não guardar tudo isso com amor em uma caixinha no coração.

obrigada aos fortalezenses que me acolheram nessa noite e que me fizeram guardar lembranças da cidade de uma maneira muito mais real e especial.

obrigada à sorte.

ou talvez ao destino…