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forcinha extra.

eu voltei de viagem sem nenhum textinho por aqui.

(aliás, faz um tempo que não tem nada por aqui, né).

e o pior é que dessa vez eu tinha história demais pra escrever, reflexão demais pra fazer. mas cadê esses escritos todos?

não tão nos caderninhos, não. não tão em lugar nenhum pra falar a verdade…

e isso é bem ruim, porque poxa: como que eu vou lembrar se na minha memória não posso confiar?

vou fazer assim ó. já que nem tenho tanta coisa pra fazer mesmo (ér… mentira), porque não me lotar com novos desafios?

quero doze textos na minha mesa, pra ontem, dona isadora. três pra cada lugar onde você foi nessa viagem, entendido?

feito!

mas não precisa ser pra ontem não. to feliz se até fim do ano sair metade disso tudo (epa, metade não, tem que sair tudo poxa vida).

tá tá tá. bora escrever um pouco.

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anotações.

a principal função dos cobertores, pra mim, não é me proteger do frio. preciso sentir o peso das cobertas sobre mim pra dormir bem. isso é fundamental.

ta acabando o ano e to preocupada que não vou ter uma agenda da monoblock pra dois mil e dezoito. e agora? ix.

talvez se eu tivesse mais dinheiro sobrando ia comprar as coleções inteiras da monoblock. talvez eu devesse trabalhar tendo isso como maior meta e sonho. talvez…

qual o sentido do spotify em colocar enanitos verdes, jorge drexler e tan biônica numa mesma playlist? não sei, mas gosto.

gosto de falar sobre no poo e rotinas capilares.

às vezes crio umas paixões platônicas só pra resolver minhas carências. e resolvem.

quando vou terminar cien años será?

to odiando ter internet em casa. ou talvez eu esteja odiando não ter auto controle e conseguir dormir cedo…

 

boa noite 🙂

 

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questões pra rankear.

tenho algumas questões não resolvidas que poderiam facilmente ser trabalhadas numa sessão de terapia.

como dei uma pausa nas idas à psicóloga, tenho que tentar resolver por conta própria (ou enchendo os ouvidos da lari com minhocas, devaneios e borboletas).

eu até que to me saindo bem, converso comigo mesma do jeito que falo com a psicóloga e tento fazer perguntas no estilo das que ela faz. além de ficar procurando outras atitudes que já tive ou sentimentos meus que se co-relacionem com o que eu to tentando resolver.

tipo, tava com uns probleminhas em relação a criar expectativas (quem sempre né?), em relação a querer ser de um jeito diferente do que realmente sou, etc. e fui pensando, amarrando nós, desamarrando, até que meio que resolvi.

mas o que acontece é que hoje encontrei outra questão pra resolver. essa não tem só a ver com a minha relação comigo mesma e com o mundo, mas tem também a ver com a relação do mundo com ele mesmo. eu quero mesmo divagar sobre essa questão, enxergar vários ângulos, entender o que se passa comigo, e vou aproveitar pra analisar isso tudo aqui. vamo vê no que dá.

hoje no teatro fizemos várias esquetes inspiradas em notícias de jornal. eram temas bem amplos e diferentes. mal terminamos de apresentar, e um amigo meu me perguntou qual eu mais tinha gostado.

repassei todas as cenas na minha cabeça, incluindo a minha, pensei nos pontos altos e baixos que eu tinha julgado em cada uma, tentei lembrar do que eu senti enquanto assistia, no quanto cada uma tinha me tocado.

no fim, não cheguei a nenhuma conclusão que me permitisse dar uma resposta a ele. falei então que eu tinha dificuldades em “rankear” as coisas. ele me disse que ele tinha dificuldades em não “rankear” as coisas.

(entendam “rankear” como “fazer um ranking”. dizer que gostei mais dessa, depois dessa, depois daquela. ou mais dessa e menos dessa. etc.)

essa conversinha me incomodou bastante. primeiro eu achei que era triste ele precisar rankear tudo (triste, errado, feio, escroto). depois eu achei que o que era tristeerradofeioescroto era eu achar isso da necessidade/mania dele.

será que na verdade eu não tava me incomodando com a fala do meu amigo porque não queria que a minha esquete entrasse nesse “ranking” dele e ficasse pra baixo? será que o fato de eu não gostar de rankings tem a ver com as minhas inseguranças? com meu medo de perder, com meu medo de não ser ~a melhor~?

faz pouco tempo eu escrevi outro texto aqui sobre competições. sobre como eu amo competir e sobre como tenho zero problemas com perder. sou uma boa perdedora, mesmo. não faz sentido eu me incomodar com rankings por insegurança, nesse caso, não é? jã que eu não tenho problemas com perder né? não sei. faz sentido? to confusa.

a verdade é que a minha relação com competições, comparações e rankings é bem confusa. beeeeem confusa. to aqui tentando resolver.

voltando à situação de hoje e tentando enxergar por outro ângulo:

a pergunta que o adriel me fez “qual você gosta mais?” é a mesma pergunta que eu escuto desde que eu tenho sete anos de idade e que vim morar aqui. “qual você gosta mais, brasil ou argentina?”

por que caralhos eu tenho que escolher entre meus dois países? por que eu tenho que gostar mais de um do que de outro?

quando eu penso nas alegrias e maravilhas que o brasil tem, meu outro lado do coração logo me mostra todas as alegrias e maravilhas da argentina. e quando lembro das coisas que não gosto tanto em um dos países, logo me lembro das que não gosto tanto do outro.

esses gostares e não gostares estão em perfeito equilíbrio? não, não estão. mas será que o fato dessa gangorra pender mais pra um lado do que pro outro significa que eu possa encher minha boa e dizer que gosto mais de um?

eu to constantemente mexendo nas caixinhas de gostares das coisas, até porque to constantemente mudando meu jeito de ver o mundo, então essas caixinhas não são estáveis. me sinto injusta de afirmar que gosto mais de algo do que de outro, sendo que nunca vou conseguir essa estabilidade porque nunca vão ser esgotados os pontos vista e as discussões que algo pode me trazer.

veja bem, a questão não é gostar ou não gostar. é ter que rankear as coisas que eu gosto. se eu gosto, é porque tem particularidades únicas, em indeterminadas faces.

eu tenho um filme favorito. mas não me faça dizer se gostei mais desse ou de outros filmes bons, porque os outros tem tantas qualidades que eu simplesmente não posso compará-los.

aí me vem a questão de: como eu escolhi um filme favorito se eu não fiz uma comparação com outros filmes? eu acho que eu só ~senti~ esse filme de um jeito mais forte e profundo do que eu senti os demais. talvez se a gente perguntasse “qual você “sentiu” mais?” a resposta seja mais fácil de achar.

eu tenho clareza de qual foi a cena do teatro de hoje que eu mais “senti”. mas ela foi uma das com menos qualidades cênicas. é injusto eu dizer que “gostei” mais dessa sendo que tinham outras com qualidades cênicas tão melhores. e é injusto eu dizer que “gostei” mais das cenas com melhores qualidades cênicas, sendo que elas me tocaram menos.

e se por um acaso a cena que eu tivesse mais “sentido” fosse também a com mais qualidades cênicas, não seria injusto dizer que foi a que eu mais gostei sendo que as outras tinham particularidades tão únicas, temáticas e técnicas totalmente diferentes?

a lari sempre me zoa que eu falo de todo mundo como se fosse meu melhor amigo. acho que tem a ver com essa história, com a minha dificuldade em escolher um só como o melhor (calma cami, você é a minha melhor amiga). parece isso que tira todas as qualidades dos outros. talvez eu que esteja errada de pensar assim.

já tentei também fazer uma lista decrescente das cidades que eu mais gostei. e é impossível. eu sempre troco a posição delas. eu sempre escolho uma cidade diferente quando me perguntam qual eu gosto mais.

as coisas são tão únicas que, cara, não dá pra rankear sabe? claro que consigo achar mais pontos fortes ou fracos nas coisas. mas às vezes um ponto forte é tão forte que o filme pode ter mil pontos fracos. enquanto outro filme tem mil pontos fortes, e poucos pontos fracos mas não tem AQUELE ponto forte. mas tem os outros mil.

eu pensei em escrever aqui que isso é igual a aquela expressão de que não dá pra comparar maçã com banana. mas eu percebi que a maioria das pessoas facilmente diria que gosta mais de uma fruta do que da outra. aí caiu a ficha que o problema realmente deve ser eu. que não consigo dizer qual gosto mais.

falando desse jeito parece que eu sou indecisa. mas eu não sou muito indecisa não. só tenho problemas em dizer que gosto mais de uma coisa do que da outra, porque eu consigo enxergar qualidades infinitas nessas coisas.

EU TO CONFUSA. talvez tenha que levar isso pra terapia mesmo. ou talvez não faça diferença na minha vida.

mas confesso que a necessidade do meu amigo, que eu enxergo como sendo a necessidade do mundo e da nossa sociedade, de rankear e comparar as coisas continua me incomodando.

talvez eu rankeie as coisas pra caralho sem perceber.

mas continua me incomodando.

 

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só porque eu tava afim de escrever algo.

hoje de manhã me olhei no espelho e me senti tão adulta.

talvez seja porque to usando uma jaqueta jeans da minha mãe e um cachecol do jeito que ela usa. talvez esteja vendo ela refletida em mim, sei lá.

como ta frio, a jaqueta não dá conta e preciso colocar um casaco peruano laranja vivo por cima. lá se foi a adultez…

eu tô cansada-porém-feliz.

hoje a cami vem pra cá. e pra isso, precisei passar a madrugada limpando a casa.

meu apartamento tava tão caótico que pra andar por ele eu tinha que dar passos largos com a ponta do pé, enquanto desviava e tentava não pisar em coisas aleatórias jogadas pelo chão.

fui dormir, às cinco da manhã, com uma sensação de dever cumprido.

“responsabilidades feitas”, pensei.

haa… se fosse responsável mesmo eu não teria três sacos gigantes de lixo acumulado de sabe-se lá quantos meses pra jogar fora.

a mesma sensação senti em outros dois momentos:

– quando consegui reaver uma multa depois de atrasar o pagamento do aluguel.

– quando montei uma planilha linda&perfeita no excel pra me programar pra recuperar as quarenta horas negativas que tenho aqui na empresa.

vê como eu vivo pra remediar irresponsabilidades da minha vida?

fico bastante na dúvida se isso é um ponto a melhorar, um atraso de vida, ou algo que simplesmente faz parte de mim por valorizar mais outras coisas.

o ivan sempre diz que eu sou cabeçuda. sobre eu ser desorganizada… cresci aprendendo que eu era assim. irresponsável? imatura?

eu não sei…

talvez.

mas talvez não veja problemas em ser assim.

digo, eu amo meu caos.

semana passada em um daqueles meus devaneios de conversar sozinha e de conversar com as coisas do meu quarto, comecei a soltar declarações de amor pra montanha de roupas, pros papéis de modelagem espalhados e até pros sacos de retalhos. “eu me sinto bem com vocês aqui”.

as sujeiras da minha casa.

as bagunças da minha cabeça.

 

será que preciso mesmo limpar tudo isso?

 

(o chão do apê tá branquinho, vazio. me sinto sozinha)

 

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filmes que tenho assistido nos últimos tempos. 4

oi.

to numa fase estranha da vida. um vai e volta louco de sentimentos.

indo de momentos de perturbação absoluta pra momentos de paz e serenidade como nunca tinha sentido antes.

tenho milhares de coisas loucas pra falar, conversar, desabafar. mas to rodeada de pessoas especiais com quem posso falar sobre.

tenho centenas de textos começados na cabeça, milhões de frases soltas nos meus quinhentos caderninhos e uma listinha de textos pra escrever. tenho vontade de voltar pra cá com uma crônicazinha ou outra. mas enquanto isso não rola, vamos pra nossa sessãozinha de filmes vistos ultimamente.

(tem muito filme nessa lista omg)

mesmo que eu não tenha assistido mta coisa nos últimos tempos, já faz um tempão desde que escrevi o número 3 dos filmes q tenho assistido. ou seja, a lista ficou gigantona. vamo ve no que vai dar isso aqui hoje.

acabei de ver boyhood. até tenho alguns pontinhos que poderia criticar e problematizar, mas o que quero falar mesmo é que eu amei, eu achei o filme tão extraordinário, tão incrível… é aquela coisa que eu gosto nos filmes né: coisas reais, coisas quotidianas, coisas que espelham a nossa vida. foi lindo acompanhar a vida, o crescimento e amadurecimento do mason como se fosse um espelho da minha própria vida. tem muitas cenas que eu me identifiquei, principalmente da infância deles, das brigas entre irmãos, das referências de cultura pop (tipo wildecats sing along

faz um tempo já que assisti ginger and rosa e é um filme escondidinho no netflix mas muito incrível. protagonizado por mulheres fortes, com roteiro e direção de uma mulher, e acontece em londres. mostra o crescimento e amadurecimento de duas amigas durante a guerra fria. tem militância, feminismo, libertação e filosofias.

e o terceiro que eu gostei mttt e que merece ser citado em um paragrafozinho maior é a garota no trem. não sei exatamente porque eu gostei tanto, não sei como foi a crítica no geral pro filme. porém acho que ser protagonizado por mulheres, jogar na nossa cara tantas coisas de abusos em relacionamentos, e ter aquele suspense daorinha que me deixa com frio na barriga foi o que me fez gostar tanto. gostei da sequência misturada e descontinuada como foi feito o roteiro, eu criei e destruí várias teorias na cabeça enquanto assistia o filme.

ahmmm ta, agora deixa eu pensar (enquanto escrevo sobre esses próximos filmes tem uma pulguinha me dizendo que já escrevi antes sobre, mas não achei nada por aqui então vai saber). do meu querido cinema espanhol, assisti dois extremos: tenemos que hablar, uma comédia bem tipo global sabe? mas bem levinha. e assisti felices 140 que é um dramón pesado e tenso (com a maribel <3). achei engraçado que os dois filmes tem um personagem argentino, carregado daqueles preconceitos e estereótipos deles.

assisti um chileno muito bom, feito todo através de financiamento coletivo, que fala sobre como as coisas são mais fáceis pra quem nasce em família rica e poderosa, o aqui no ha pasado nada. vi também imagining argentina, que conta uma história da ditadura na argentina, mas produzida no estados unidos e com o áudio em inglês – quase desisti quando vi que era assim, mas o filme é bem bomzinho na verdade). e assisti neruda também. muito mais saber mais sobre ele, sua boêmia, sua teimosia, seus erros e suas poesias.

de br assisti colegas e de argentino vi el hijo de la novia (darín <3)

revi será que?, desventuras em série e a bela e a fera.

vi a primeira versão de a fantástica fabrica de chocolate (e  jesus mt melhor).

vi a pele em que habito, apesar de ter demorado quase umas 3 semanas assistindo de 10 em 10 minutos, e to nessa de tentar me familiarizar com os diretores toppp.

tem um outro filme que eu recomendo muito que é um turco que se chama 5 graças. as protagonistas são cinco irmãs de uns 10 a 17 anos, imagino eu, vivendo numa cultura que não lhes dá muita (nenhuma) liberdade de escolha. é muito legal ver como cada uma vai lidando com as imposições, ou não lidando.

como tive muitas horas vôo, e tinham bons títulos na mídia united, consegui me atualizar e ver alguns filmes até de oscar. la la land, manchester by the sea, animais fantásticos e onde habitam, jackie, doctor strange e snowden são alguns dos que vi, mas os que eu mais gostei foram aliados e loving, me envolvi bastante nessas histórias. e também assisti no vôo o clássico grande hotel budapeste.

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Desabafo sobre meu maior medo.

Esse não é um daqueles meus textos despretensiosos e fofos, por isso não tem sentido usar as iniciais minúsculas, os parágrafos e frases curtas, os diminutivos e as expressões de linguagem informal. É um desabafo, como muitos dos meus outros textos por aqui. Mas um desabafo sério.

Eu tive aula hoje de manhã. A ideia era pegar um ônibus as 5h30, mas essa hora não tinha amanhecido ainda então era impensável sair andando pelo meu bairro no escuro. Fui de taxi.

Minha aula era em outra cidade e quando acabou, tive que pegar outro ônibus para a cidade dos meus pais. Minha casa fica relativamente perto da rodoviária, então vou andando. O caminho não é o mais seguro do mundo, meus pais sempre ficam apreensivos quando tenho que passar por uma ponte em questão. Mas já fazem três anos que eu faço esse caminho, inclusive algumas vezes tive que passar por ali a noite, e nunca aconteceu nada. Quer dizer, já passei por algumas situações que me deram um pouco de medo. Minha tática sempre é olhar ao redor, mas manter a cabeça baixa e o rosto fechado. Meu passo é apressado e não fico tranquila até chegar perto de uma área mais movimentada.

Hoje eu tava distraída. Saí do ônibus lembrando de um filme que eu tinha visto. O filme tinha algumas cenas machistas e eu tava debatendo comigo mesma algumas questões do feminismo. Tava criando discursos mentais, lembrando de argumentos e fazendo um paralelo com um quadrinho que li ontem sobre o que é ser mulher.

Para subir naquela ponte, tenho que passar por uma rampa de acesso. A rampa é meio isolada, de um lado tem um muro alto que separa o caminho de um terreno cheio de mato e do outro tem um morro com gramado que vai até a estrada. Quando fiz a curva pra entrar na rampa, que imagino que tenha uns 30, 40 metros de comprimento, vi que vinha um cara atrás de mim.

Apesar de ser um acesso importante e um caminho que leva ao centro, na maioria das vezes que passei por ali eu estava sozinha. Ter um homem andando aqueles 40 metros tão perto de mim não me deixou muito segura não, mas como falei antes, eu tava distraída, ainda tava no debate mental sobre feminismo. Segurei a minha bolsa com as duas mãos e lembrei que meu notebook tava na mochila. “O cara parece normal, acho que não vai me roubar aqui”, lembro que pensei.

Eu não andei mais do que três metros quando comecei a ouvir uns sussurros. Demorei pra perceber o que tava acontecendo. Demorei pra perceber quais palavras estavam sendo ditas. Apertei meu passo e senti o passo do cara acompanhar o meu, as palavras que ele soltava iam ficando mais claras e o meu medo ia aumentando. Olhei pra frente e ainda tinham pelo menos dois terços do caminho pra percorrer, em subida, sendo que lá em cima também não era o lugar mais seguro. Se acontecesse algo, se o cara quisesse que acontecesse algo, eu não ia ter pra onde fugir. Pensei em voltar o caminho, já que ia chegar mais perto pra um lugar movimentado, mas pra isso eu ia ter que passar pelo cara. Eu olhei pra trás pra ver se tinha alguma chance, e foi só então que eu vi que não eram só os sussurros. O cara me olhava, me chamava, e se masturbava enquanto isso.

Passar por ele realmente foi uma opção descartada. Apertei mais ainda o passo, quase correndo até chegar lá em cima. Meu plano era acenar para os carros e pedir alguma ajuda caso ele viesse atrás. Por uma sorte absurda, ele foi ficando pra trás até que, quando cheguei na ponte, ele já tinha sumido de vista.

Por algum privilégio da minha vida, nunca sofri um abuso ou trauma maior. Sei que o que passei hoje não é nem um por cento do que acontece com milhares de mulheres ao redor do Brasil e do mundo todos os dias. Mas ainda assim, foi desesperador. É desesperador.

No resto do meu caminho pra casa, não consegui respirar direito. Senti meu rosto ficar vermelho, queimar, arder, como se eu estivesse morrendo de vergonha. Vergonha? Vergonha de quê? Me senti um objeto, senti minha liberdade ser privada, senti nojo de mim mesma, dos outros, do mundo. A cada homem que passou por mim, eu me encolhi o máximo que pude. Não consegui organizar meus pensamentos direito, meus sentimentos direito.

Lembro que em um dos momentos de raiva, quando já estava entrando na rua de casa, pensei que não tinha como continuar a vida desse jeito. Como eu ia voltar a olhar pros homens da minha vida? Como é possível continuar a viver sendo que você é vista pela sociedade como um objeto descartável? Como eu ia conseguir olhar pra minha mãe, pra minha irmã, pra minha prima, sabendo que elas já passaram ou que um dia irão passar por esse sentimento tão ruim?

Quando contei pra minha mãe, ela me disse que esses caras eram doentes. Não, eles não são. Nossa sociedade é que é doente. Pra eles, a gente não é nada, a gente não significa nada. Seres que só existem para servir, que só são reféns do prazer alheio. Seres que não têm vontades, quereres, vidas.

Mas, na verdade, a gente tem uma vida. E a gente tem que voltar pra ela, como se nada tivesse acontecido. Tive crise de respiração, de choro, de angústia, mas meia hora depois eu tava sorrindo. Contando da semana. Abraçando minha prima. Fingindo que tava tudo bem. E tava? Não tava? Ta? Não ta? Eu não sei.

 

 

Essa semana assisti uma peça em que a gente queimava todos nossos medos. Em um dos momentos, a gente queimou nosso medo de andar na rua sozinhas só por sermos mulheres. Mas depois a gente teve que voltar pro mundo real. Um mundo de medo.