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misturando palavras pra tentar ser engraçada.

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hipoteticamente, fecho os olhos.

não hipoteticamente, começo a caminhar.

a partir do momento que coloquei meu dedo indicador direito para fazer a leitura da digital e ser liberada das nove horas e quarenta e oito minutos que passei sentada pesquisando gifs legais para assinar meus emails, o medo de voltar pra casa voltou a me assombrar.

acho que a última visita que recebi foi há duas semanas. não por acaso, isso coincide com a última vez que arrumei minha cama, varri o chão ou lavei as louças na pia.

o medo de encontrar um monstro saindo debaixo da montanha de roupas (também conhecida como meu armário) faz minha respiração pesar mais a cada passo que dou em direção ao portão da empresa.

“pra onde eu vou hoje?”

com a mochila velha do meu pai nas costas, minha bolsa carteiro no ombro e as mãos guardadas nos bolsos do casaco laranja berrante, fixo meus olhos nas manchas roxas de respingo de açaí na blusa branca:

fome.


hoje fiz alguns vídeos estilo youtuber pra um projeto. consegui me observar por outros ângulos, e acabei chegando à conclusão que meu rosto parece bastante mais redondo do que a última lembrança que eu tinha dele.

fora temer isso, as mangas da minha camiseta tamanho m entupidas pelos meus braços gordinhos e a minha postura cansada me levaram a fazer uma retrospectiva de como tenho levado a vida ultimamente. – ou talvez de como tenho comido a vida ultimamente.

com esse pensamento, decidi que ia começar a pensar na alimentação focando em saúde, economia e em umas gorduras a menos.


em vez de continuar o caminho reto e ir pro espaço (casa?) que agora divido com um monstro, viro a esquina e vejo o ônibus chegando no ponto.

corro de maneira desengonçada e aceno pro motorista me esperar.

passo os minutos seguintes sentada olhando pela janela e tentando encontrar uma resposta pro dilema da minha vida hoje.

“pra onde eu vou?”

em determinado momento, vejo uma parada de ônibus que me parece amigável. levanto repentinamente, aperto o botão e luto para não me desequilibrar.

com a cabeça vazia vou caminhando sem direção certa.

fome.


eu não paguei minhas últimas duas parcelas de condomínio e acho que a mensalidade da faculdade venceu ontem.

não sei se tenho dinheiro na conta e nem quero olhar.

preciso economizar, por isso – e só por isso -, passo reto pela barraquinha de healthy food e pela verdureira da esquina.


vejo vitrines que não me dizem nada. atravesso a rua infinitas vezes para ver algo aparentemente mais interessante que está do outro lado. dou voltas aleatórias em quarteirões aleatórios.

leio placas, nomes, títulos de livros, indicações técnicas gravadas em eletrônicos, pixações, informações inúteis em santinhos de políticos.

caminho mais um pouco tentando decifrar a vontade do meu paladar.

acho que quero pipoca.

fome.


chego no único shopping da cidade e me decepciono ao sentir a falta da barraquinha de pipoca que costumo ver por lá.

me rendo, e decido entrar no shopping, ouvindo vozes confusas na minha cabeça:

“que tal ver se o milkshake do bobs continua igual?”

“ahh, mas um whopper cairia tão bem”

“uhmmm, e essa torta de chocolate”


contrariando tudo, eu, hipoteticamente, fecho os olhos e quando, hipoteticamente, os abro me vejo na fila de um restaurante oriental.

um ou outro sushi não vão me fazer mal, e nem vai sair tão caro, tenho certeza…

fecho os olhos de novo, e quando os abro, me vejo digitando a senha do cartão de crédito na maquininha que marca em torno de trinta e dois reais.

ok, agora já foi…


quando como metade de todo o conteúdo que tinha jogado em cima do prato, o peso na consciência começa a bater… o estômago vai ficando cheio e começo a dar esporros mentais pra mim mesma.

depois de colocar o último hot roll na boca e mastigar sentindo o gosto que tanto amo, só consigo pensar que quero mais.


olho pro relógio, e tenho que correr pra pegar o último ônibus em horário seguro pra ir pra casa.

antes disso, uma passadinha no cinema. na bomboniere do cinema.

uns vinte minutos perdidos pensando se pego o tamanho curto, médio ou longo.

“doce ou salgada?”

“pode colocar as duas?”

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buquê.

chuvoso

em um dia aleatório, nublado e chuvoso, saio de casa e vou caminhando em direção ao centro.

é um dos meus passatempos.

caminho pela rua quinze e por suas dúzias de transversais, entrando de loja em loja superficialmente. falo sozinha. alto. meus pensamentos voam para longe, bem longe.

isso deve ser coisa da minha provável lua em peixes, pensaria minha neta mais tarde.

meu ritmo é lento.

meu pensamento por vezes vai tão longe, que eu deixo de perceber o que acontece à minha volta.

vultos passam por mim. perco minutos olhando uma vitrine sem realmente raciocinar sobre os produtos que estão sendo expostos. caminho de cabeça baixa e decido voltar para casa.

passo reto pela rua onde devo entrar para ir pra casa. quero dar uma passada no supermercado.

caminhando desse mesmo jeito, com a cabeça baixa mas a mente na lua, me surpreendo com um menino apontando um buquê de flores na minha cara. o buquê deve estar o um ou dois centímetros de distância do meu nariz.

pela minha olhada rápida, no mínimo, ele deve ter um quinto da minha idade.

“que que é isso menino, o que você quer?”

“é aniversário da minha namorada, eu quis fazer uma surpresa pra ela… mas ela me deu um bolo”

“mas o que eu tenho a ver com isso?”

“simpatizei com a senhora, quero dar o buquê pra ti.”

a cara do menino me faz partir o coração, mas tenho dúvidas da história que ele me conta. o buquê é lindo, deve ter custado uns bons dinheiros.

“mas você não tem mãe, não tem vó? dá esse buquê pra elas!!”

“eu não quero mais ficar aqui, não quero mais ficar com as flores, to dando pra senhora!”

nessa hora o menino me abraça e me dá um beijo carinhoso na bochecha. não tenho certeza do que fazer, não é o tipo de coisa que me acontece todos os dias.

fico até mesmo com medo de que tenha alguma bomba dentro do buquê, já que estamos com essa onda de terrorismo que não para de passar na tv. mas decido aceitar o agrado do menino e continuar, mesmo que receosamente, o meu caminho.

agradeço, ainda desconfiada, e vou em direção ao supermercado sem saber direito o que pensar. depois de alguns passos, olho pra trás e lá está o menino sentado no ponto de ônibus, cabisbaixo como se nunca.

me dá pena.

mas logo me vejo novamente submersa em mil e um pensamentos. qual história vou contar pro meu marido quando chegar em casa com um buquê lindo desses?

 

 

 

*tentativa de criar narrativas a partir de outros olhares, outras vivências. não ta fácil 😦

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corpos.

corpos

 

cheiros que não reconheço.

texturas que não fazem sentido.

visões que meus olhos nunca antes viram.

conversas vazias, cruas.

nuas.

os corpos, cobertos.

descobertos.

e os movimentos, certos?

poeira no chão.

bagunça na alma.

respiro.

não sinto.