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mochila de couro.

bandeiras

por algum motivo, meus pais não puderam me buscar na última vez em que cheguei na rodoviária de blumenau, coisa que faço em quase todos os fins de semana. por isso, quem apareceu por lá foi meu avô.

fico sentada em um dos bancos amarelos, alternando minha visão entre o celular e os carros que vão chegando. vejo um carro meio grande, prata, com detalhes em preto. minha maravilhosa habilidade e meu ínfimo conhecimento de carros não me permite identificar como sendo o eco sport do meu avô até a hora em que ele estaciona na vaga de idosos posicionada bem na minha frente.

nessa hora, levanto e vou caminhando até meu avô já com uma expressão de agradecimento no rosto. ele me recebe sorrindo gostosamente.

antes mesmo de me dar oi, ele só resmunga de um jeito carinhoso “essa mochila, tantas histórias”.

vejo a graça no olho brilhante dele. já sei muito bem do que ele tá falando, mas como gosto de ouvi-lo contar, pergunto qual foi a lembrança que o fez sorrir com tanta nostalgia.

“teu pai, tantas vezes vinha da argentina só com um par de roupas e essa mochila nas costas… tantos anos atrás, e agora tu que tá usando.”

pois é, peguei emprestada pra sempre a mochila do meu pai. ela não tá intacta, mas o couro machucado e o zíper travado não me fazem deixar de usá-la. deve fazer uns dois meses que eu achei e roubei essa relíquia e confesso que é uma das coisas que mais me dá orgulho usar.

abandonei minha mala, minha outra mochila, e às vezes até deixo minha bolsa em casa só pra poder sentir as alças de couro e a forma desengonçada dela em meus ombros e costas.

além de carregar a mochila, sei que carrego muitas histórias com ela.

histórias não só minhas, mas do meu pai, da minha mãe, da minha família. daquele amor de verão que começou em vinte e oito de janeiro de mil novecentos e noventa e quatro.

a história que me contam e que eu repito vez ou outra quando alguém se diz interessado sobre como eu virei metade argentina e metade brasileira é a seguinte:

meu pai, como quase todo jovem argentino, veio passar as férias no litoral catarinense.

estava ele, com um grupo de amigos, em um bar na praia de perequê em porto belo. minha mãe, com seu grupo de amigas, passou pela frente do bar e ouviu alguém lá de dentro chamando-a/fazendo psiu/flertando/ou alguma outra coisa, não sei detalhes.

a paquera começou dessa maneira. foi acontecendo aos poucos (ou de maneira bem rápida, melhor dizendo) e os dois viveram um amor de verão. os amigos que tinham vindo junto com meu pai, de carro, tiveram que voltar de ônibus pois não tinha jeito do jovem maximiliano voltar pra sua terra cedo.

aconteceram alguns pormenores depois disso, que eu não lembro muito bem. só sei que três meses e muitas contra recomendações dos meus avos maternos depois, a jovem nicole se jogou pra vida loca e foi pra argentina com meu pai.

podia não dar certo, mas deu.

em setembro daquele ano, um espermatozóide argentino chegou primeiro e fecundou o óvulo brasileiro da minha mamãe, formando um aglomerado de células que não parou mais de se reproduzir. chegou um momento que eram mais de um trilhão de células carregando informações genéticas de meus pais, e de meus países.

nasci na argentina. aprendi a andar, falar, fazer xixi, ordenhar vacas, rezar, ler e escrever lá na argentina. não tenho a menor lembrança de como foi quando me mudei pro brasil, não faço ideia de como foi essa viagem, não lembro nada dos meus pais me contando e explicando que eu ia sair do país. só sei que cheguei aqui em dois mil e dois, ano de copa do mundo e de eleições.

brasil penta e lula presidente.

aprendi a pensar, a lembrar, a sonhar, a gostar de futebol e de política aqui no brasil. cresci, me desenvolvi e me descobri aqui, virei pré-adolescente, adolescente, jovem e adulta.

nunca deixei de visitar o país que me mostrou o céu pela primeira vez. de ônibus, de carro, de avião, cruzar fronteiras pelo menos uma vez por ano acabou sendo algo natural pra mim. a estrada a qualquer hora do dia. mais de vinte horas em movimento. dormir pra sentir o tempo passar mais rápido e poder abraçar logo meus “nonos” argentinos…

eu me acostumei.

eu me acostumei a não ver essas fronteiras, a não sentir essas distâncias. é só uma estrada, só uma divisão geográfica.

quando eu digo que metade de mim é brasileira e metade é argentina não quer dizer que exista uma linha reta que divide essas duas partes. as duas coisas fazem parte de mim tão intrinsecamente, que é impossível analisar qualquer característica minha desvinculada de um dos países.

no fim dessa receita toda, eu sou uma mistura homogênea de meia xícara de brasil e de mitad de una taza de argentina.

e por ser tão homogênea, não foi difícil acrescentar outros ingredientes nessa travessa. a colombia se misturou rapidinho e o contato com um tio peruano também ajudou a trazer um sentimento latino.

eu percebi que não sou só metade argentina e metade brasileira.

sou mais do que isso, sou latino americana.

uma orgulhosa argentina, uma orgulhosa brasileira.

uma orgulhosa latina.

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número seis.

nascer do sol

primeira vez viajando em um teco teco.

seis degraus para subir no avião.

seis centímetros entre a cabeça do moço mais alto até o teto do avião.

seis pessoas estão amedrontadas com o tamanho do avião.

seis minutos é o tempo que demora para que os passageiros se acomodem no avião.

seis pontos na escala richter é o como eu sinto o mundo na hora da decolagem do avião.

seis segundos é o tempo que eu levo pra entender que o negócio gigante que atrapalha minha visão é a asa do avião.

seis quilos, tenho certeza, é o quanto eu peso a mais do que o próprio avião.

quando eu olho pela janela, apesar daquele trambolho gigante e nada fotogênico que fica exatamente no meio da minha visão, são seis piscadas necessárias para eu entender que realmente estava vendo aquilo.

aquele nascer do sol.

seis vidas inteiras em troca de um nascer daqueles.

 

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torrencial.

oito pares de calçados espalhados pelo chão do meu pequeno apartamento de trinta e cinco metros quadrados.

algumas embalagens vazias de salgadinho. uma ou duas garrafas de cerveja. roupas empilhadas. papéis amassados.

eu, deitada na rede, de pernas pro ar. o zíper da calça jeans aberto para deixar a barriga respirar.

meu casaco do peru posto ao contrário.

cartas e desenhos não finalizados entupindo minha mesa.

o ar é meio bucólico.

talvez eu não saiba direito o que significa bucólico.

já passa da uma da manhã. eu não sei bem o que eu to fazendo acordada.

ontem baixei o tinder de novo. não sei bem porquê.

tédio, carência, influência da amiga, eu estar bêbada… um pouco de cada motivo.

eu, deitada na rede, tenho mais algumas daquelas tantas conversas vazias. menos uma delas.

 

– “sinto que to te decepcionando a cada coisa que falo”

– “não. ta sendo diferente das outras vezes”

– “diferente por quê?”

– “eu me sinto vivo”

 

dou um sorriso interno espontâneo, apesar de não ter mexido nenhum músculo do rosto. mais um gole de cerveja, e uma resposta qualquer.

largo o celular. olho pro teto, depois pra uma curiosa embalagem de negresco que está no chão. brinco com a garrafa de cerveja na minha mão. flexiono o joelho esquerdo apoiado no armário para fazer a rede balançar.

penso na resposta do menino. o que é se sentir vivo?

será que eu sinto isso? será que algum dia já senti?

 

– “quer tomar banho de chuva?”

 

sou surpreendida por essa mensagem.

são duas da manhã e tenho que levantar às cinco e meia para ir para a casa dos meus pais.

a chuva ta forte. faz frio.

não fazem mais de seis horas que combinei com o menino no aplicativo. toda nossa conversa é menor do que o menor texto que já postei aqui.

me pergunto de novo.

o que é se sentir vivo?

duas da manhã.

chuva torrencial.

espontaneidade.

banho de chuva.

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shakira.

cama

domingo de manhã.

o meu colchão não é dos mais confortáveis. eu sempre acordo com dor nas costas.

to com a roupa que usei ontem pra sair. ou parte dela.

no caso, sobrou só meia calça e sutiã.

to escondida embaixo das minhas duas cobertas.

sim, escondida. não coloco nem a cabeça pra fora e me encolho pra ficar como um tatu bola.

é quentinho aqui.

já fiz meu ritual matinal de acordar cedo, ir pra cozinha, me empanturrar de tudo que acho por lá (inclusive sorvete de doce de leite!!!) e voltar pra cama.

agora acordei de novo. consigo ouvir shakira, que ecoa pelo celular da minha mãe lá na cozinha.

um pouco mais longe, escuto a conversa dos meus tios, meu irmão e meu avô. apesar de saber que o tom da conversa é um tanto gritado, eu só escuto murmúrios. pelo visto, vai ter churrasco.

sinto que minha irmã e a amiga dela estão dormindo no quarto ao lado. tá silencioso e sei que as meninas ficaram acordadas até tarde. então sinto segurança em tê-las aqui perto.

vez ou outra escuto um comentário do meu pai. o som da louça sendo usada. a máquina de lavar batendo…

tomo coragem, estico o braço pra fora do meu esconderijo e aproveito para correr um pouco a cortina da janela e deixar o sol bater na minha cara.

sol de domingo de manhã.

perco mais algumas dezenas de minutos ali.

imóvel.

som, sol, shakira, cobertores, respiração. minha família.

meu melhor domingo de manhã.

 

 

 

 

(ps. não foi fácil escrever esse texto sem cantarolar mentalmente a melodia daquela maravilhosa música de sertanejo. inclusive ela continua na minha cabeça. peço desculpas se o mesmo efeito afetou vocês)