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blackpower. só que não tanto.

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estava sentada no meu lugar de sempre.

de frente pra porta de entrada da biblioteca.

não sei porque, mas hoje minhas crianças de sempre não vieram… talvez venham mais tarde.

entraram três menininhos com o cabelo super enroladinho, mas curtinho, curtinho.

os três estavam com aqueles pentes que a galera de black power costuma usar no cabelo. mas como o cabelo deles era curto, tava engraçadinho demais aqueles pentes pra fora.

um pente de cada cor diferente. e eles passavam e repassavam pelo cabelo.

faziam pose e tudo.

chegaram chegando na biblioteca, com uma auto confiança e uma postura que me deixou com muita inveja.

isso que é estilo, meus amigos!

não é pra qualquer um.

bora me ensinar mais sobre isso, samuel, jeison e jaison?

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minha medellín.

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sobe e desce degrau.

respira ar puro.

escuta o ronco das motos.

quase é atropelada por uma buseta.

respira.

escuta as crianças gritarem.

olha as luzes da cidade.

parecem estrelas.

pensa nas pessoas em cada uma das casas.

respira.

compra uma arepa.

come a arepa.

escuta uma buzinada.

pensa nas luzes das pessoas.

pensa em cada uma delas.

pensa nas luzes como esperança.

vai no museu.

escuta o passado.

sai pra rua.

anda vinte quarteirões.

olha o presente.

pensa nas luzes.

pensa na esperança.

pensa na construção.

na reconstrução.

desvia.

respira.

escuta o metrô chegando.

vive medellín.

sente medellín.

extraña medellín.

volta pra medellín.

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sinestesia e dor.

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não entendo como algo que nos afeta sentimentalmente pode nos afetar tanto fisicamente também.

a medicina explica isso?

é uma dor que começa no coração. pelo menos comigo é assim que rola. ela não chega a ser forte. mas é intensa, expansiva.

não sei se consigo explicar direito o que quero dizer com expansiva. é como se ela não ficasse só no coração, como se fosse pulsando até dominar totalmente o meu peito.

ela não é bruta como uma pontada. nem aguda como uma facada.

tem mais a ver com uma pressão. um peso colocado sobre mim, que aperta, aperta e aperta ainda mais.

acho que essa dor vai até a barriga. quando chega lá, ela dá um jeito de embrulhar tudo.

camufla a fome, camufla as dores de barriga, e até mesmo as minhas necessidades fisiológicas.

quando eu respiro fundo, ela fica mais forte. é como se ela fosse tão expansiva, que comprimisse meus pulmões e me impedisse de respirar.

e na hora de chorar então? além de fazer doer a garganta (ou fechá-la totalmente, melhor dizendo), quando eu choro ela se intensifica mais e mais. faz com que eu sinta uma ou outra pontada de dor mais forte.

mas o mais engraçado, é o que o meus sentidos sentem quando a dor aparece.

quando fecho meus olhos pra tentar aliviar a dor, vejo só um rosto. as vezes vejo uma silhueta também, de calça apertada e camiseta básica. e de vez em quanto, aparece de costas, sem camiseta, coçando a cabeça ou outra parte qualquer.

quanto tento me alienar e ignorar os sons ao meu redor para ver se isso relaxa a dor, juro que algumas frases típicas surgem em meus ouvidos. e é com a voz de uma única pessoa.

“junín con viamonte”, por exemplo.

ou então a risada. aquela risada. ou a tal da voz me chamando de isadora. e sempre acaba soando em meus ouvidos também uma das últimas coisas que eu ouvi: “tenta parar de chorar, isadora”.

e eu queria conseguir.

juro que nesses momentos, consigo sentir o sabor amargo que meus lábios sentem quando tocam a pele quente. o sabor dos mil cremes de alergia.

sinto outra saliva na minha boca (e juro que ela é diferente das demais), e às vezes quando engulo, sinto outros sabores sabores também.

não importa se eu to passando na frente de um lixão ou de uma loja de perfumes, é a lembrança de um cheiro só que me domina. não é cheiro de perfume, nem de desodorante e nem mesmo de sabonete. é simplesmente um cheiro, cheiro que o corpo dele exala. e quando ta misturado com suor, o cheiro é melhor ainda. e é ele que ta dominando o ar aqui da biblioteca agora.

no tato, juro que sinto arrepios passando pela minha coxa. na minha mão, sinto a barba roçando. e quando toco qualquer superfície lisa, juro que sinto os carocinhos e as cicatrizes das costas manchadas que me acompanharam por muitas noites.

e a cada sentimento sinestésico, a saudade aumenta.

mas a cada dia também, aumenta a certeza de que nada disso vai passar de lembranças e utopias.

o que acaba reforçando a dor.

e reforçando a saudade.

e reforçando a certeza.

e reforçando a dor…

e reforçando a saudade…

e reforçando a certeza…

e reforçando…

 

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cigarro.

ontem um menininho passou por mim com um cigarro na mão.

um menininho de uns oito, nove anos.

o cigarro não tava acesso.

mas ainda assim era um cigarro.

um cigarro na mão de um menininho de oito anos.

não to acostumada com isso.

e nunca vou estar.

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te quieros que valem a pena.

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acho que agora me acostumei com a loucura dos ônibus aqui.

demorou um pouco. só um pouquinho, vai…

é que não é fácil ficar de boa em um negócio que te faz pular e tremer mais do que um simulador de terremoto nível seis.

não é fácil não acelerar o coração quando a buseta (sim, os ônibus que ando aqui se chamam busetas) passa a oitenta por hora a um palmo de distância de outro ônibus que vem na direção contrária também a oitenta quilômetros.

demorei pra entender que as pessoas entravam sem pagar no bus e ficavam em pé do lado de fora da catraca. ainda não entendo como elas conseguem descer com o bus em movimento.

já me acostumei com pessoas aleatórias parando o bus, entrando pra papear ou entregar algo pro motorista e eu acabar me atrasando por isso.

hoje, o ônibus parou sem motivo aparente.

entrou um menininho pra entregar algo para o motorista. acho que eu tava no twitter, ou algo assim, aí só prestei atenção quando o menino falou algo tipo: “puedo hacerlo?”

achei que ele tava falando se podia entrar no bus sem pagar, ou algo do tipo. mas na verdade, tava pedindo pra ir brincar na rua.

daí que me liguei que o menino era filho do motorista.

o pai dele deixou, e ele saiu pulando de alegria e falou: “te quiero, papi”

gritou mais um monte de coisas enquanto o ônibus ia andando a um quilômetro por hora e o motorista/pai ia respondendo pouco a pouco as perguntas do filho, pra só depois arrancar e continuar seu caminho.

são cenas cotidianas dentro dos ônibus por aqui.

e essas cenas cotidianas são o que fazem medellín valer tanto a pena pra mim.

são essas histórias entrelaçadas. histórias de “te quiero”. histórias que me fazem amar estar presente pra ver os olhares, ouvir os diálogos, imaginar sentimentos e rotinas…

histórias que me fazem querer abraços. pensar em abraços.

histórias que me fazem abraçar medellín e ser abraçada em cada um dos dias que passo por aqui.

 

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algumas percepções sobre cartagena.

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no litoral tudo é sempre mais caro.

testes no sitema de transporte são ótimos quando a gente não tem que pagar tarifa.

é bom pedir informação sempre. a cada dois passos.

carroças e cavalos tornam tudo turístico, não importa o lugar.

varandas com flores e trepadeiras tornam qualquer arquitetura mais bonita.

os moradores de rua daqui são os que mais me comoveram por sua aparência.

souveniers e lembrancinhas são mais bonitas e mais baratas no aeroporto do que na própria cidade.

cartagena atrai turistas de todos os lados, e de todas as faixas etárias.

não existe lugar no mundo que não seja dominado por brasileiros.

sair da rotina me faz sentir mais falta ainda de alguém por aí.

viajar e fazer loucuras me faz querer ele junto, sempre.

barra livre é barra livre em qualquer lugar do mundo.

um homem e uma mulher podem entrar no banheiro feminino e fazer o que quiserem sem ninguém falar nada. por alguns minutos.

banheiro feminino é sempre o melhor lugar pra puxar papo.

tenho taxistas bff em todas as cidades pra onde já fui.

existe um serviço de taxi coletivo. você enche um taxi com pessoas aleatórias e paga uma tarifa muito mais barata. tudo isso já super programadíssimo.

sinto saudades demais dos meus outros amigos que ficaram em medellín. isso significa que tenho que começar a me preparar pra quando a gente realmente for embora.

cartagena é um bom lugar pra dar a volta ao mundo.

policiais sempre se fingem de cegos quando convém.

pilsen/águila em garrafas grandes são sempre a melhor bebida, mesmo quando esquentam.

tudo se aprende observando, aprendi a servir cerveja direito.

ouvi dizer que argentinos são melhores que brasileiros na cama :b

cartagena é linda.

as arepas de cartagena são baita boas.

é bom um pouco de solidão às vezes. ter privacidade. um quarto só pra mim. sentar na beira mar e pensar na vida.

combinado não sai caro pra ninguém, que fique claro.

as pessoas acham que eu to bêbada quando nem picada eu to.

é bom estar em um país onde você pode falar “piroca” super alto e ninguém percebe. só ficar de olho se os turistas brasileiros não estão por aí.

turistas brasileiros não se integram tanto à cultura local quanto os outros latinos e os europeus.

não sei se conseguiria viver em uma cidade histórica, apesar de ser bom demais se perder nas ruas quando as construções são mais antigas.

galera de hostel sempre sabe das coisas

chega de sair de casa sabendo que vai ter sol sem passar protetor solar.

usar biquini só quando tiver certeza que vai pra praia (retiro o que eu disse).

bares e cafés cult nem sempre são os mais gostosos – mas são aconchegantes e nem sempre são caros.

empanadas argentinas vão sempre ser as melhores.

me emociono quando leio “parrilla argentina” em algum lugar. me emociono quando leio “quilmes”. me emociono com uma foto do messi. me emociono quando escuto o sotaque argentino.

uma menina com tatuagem na coxa, na colômbia, chama bastante atenção.

andar de bicicleta com os amigos é bom demais. tem trabalho em grupo, interação, mas tem muita individualidade também.

vão de lancha pra ilha barú. sério. ou pelo menos, voltem.

hostels são a melhor coisa pra auto conhecimento da nossa individualidade.

pub crawls organizados por nós mesmo, no improviso, podem ser muito legais. muito.

sou sempre a que agita pra beber, independente do cansaço.

a gente tem que ser desencanado com a vida. sem neura. sem crise. sempre um plano b e um cartão de crédito internacional pra ajudar.

😉