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resumindo.

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resumo da minha primeira semana de intercâmbio:

segunda-feira onze de janeiro: era feriado. fui conhecer o parque arví com o pessoal. foi divertido.

terça-feira doze de janeiro: primeiro dia oficial de volountariado. Fomos em uma biblioteca muuuuito distante, pra receber instruções de como seria o projeto. uma brasileira e um panamenho nos contaram como foi incrível a experiência deles. fomos divididos em duplas e descobrimos a biblioteca em que trabalharíamos. saímos cedo de lá e fomos dar rolê em uma área meio administrativa de medellín. foi bacana o dia.

quarta-feita treze de janeiro: primeiro dia real do voluntariado. nos encontramos com as meninas que estavam trabalhando na biblioteca até então, uma peruana e uma panamenha. acompanhamos o dia e o planejamento delas. a ideia era fazer brincadeiras como dança da cadeira (não deu muito certo porque as crianças se agitam demais), abraço musical e brincadeira de charadas. como eu e o fernando tínhamos acabado de chegar do brasil, nos apresentamos e falamos um pouco sobre a bandeira do brasil. as crianças desenharam e pintaram mil bandeiras.

quinta-feira quatorze de janeiro: primeiro dia que planejamos algo pra fazer com as crianças. fizemos uma apresentação do brasil, mostramos muitas imagens e muitas músicas e vídeos. preparamos um quebra cabeça com o mapa do brasil, as crianças montaram e depois pintaram de acordo com as regiões norte, nordeste, centroeste, sul e sudeste.

sexta-feira quinze de janeiro: esse dia, supostamente, as outras intercambistas iam fazer uma atividade de inglês e nós íamos apenas planejar as nossas aulas da semana seguinte. quando as meninas terminaram, fomos pra sala infantil e começamos a fazer bandeiras de países com recortes de papeis coloridos. começamos com a do brasil, mas o pessoal passou por alemanha, panamá, marrocos, china e mil outros.

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las chicas.

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mariana tem uns nove anos e alejandra, sua irmã, deve ter uns três ou quatro.

elas estavam na biblioteca o primeiro dia que eu fui. não se desgrudavam.

mariana magrinha, magrinha. alejandra um pouco mais rechonchudinha.

foi com elas que começamos a atividade de desenho. e logo quando elas sentaram do meu lado tímidas, senti que tinha algo de errado por aí.

desenhamos e escrevemos cartinhas para a mãe delas. dei alguns abraços apertados e fiz cosquinhas carinhosas.

mariana, quando se desprendeu da timidez, era super mandona e super protetora com a irmã. tinha ciúmes quando eu tentava ajudar ale a fazer as atividades sozinha. mas a agarrava, beijava e penteava a cada dois minutos.

no dia seguinte, fui para a biblioteca esperando vê-las. meu coração tinha sido super conquistado pelas meninas e já sabia certinho como fazer para que a pequena conseguisse participar da atividade no mesmo ritmo dos demais.

mas naquele dia elas não apareceram por lá. e nem no restante dos dias que fomos.

hoje, quando estava indo embora e descendo o morro, ouvi umas vozinhas fracas me chamando.

vi mariana e sua fiel escudeira escondidinhas na entrada de um barraquinho.

“porque no vienen más?”

“no puedo” respondeu a menina mais velha.

fiquei me perguntando o que poderia fazer com que duas meninas de nove e quatro anos não pudessem frequentar a biblioteca que fica absolutamente na frente de sua casa.

acho que não me enganei quando pensei que tinha algo de errado por aí.

fiz a única coisa que podia fazer naquele momento: convidei as meninas a voltarem para a biblioteca. tentei convencê-las contando que teríamos comida brasileira na próxima quinta-feira, e tenho esperanças de vê-las nas cadeirinhas coloridas da sala infantil de novo.

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sobre sorte.

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hoje acompanhei minha amiga na biblioteca onde ela trabalha. na real, ela não trabalha em uma biblioteca normal. é um parque biblioteca.

pegamos metro plus (um ônibus compridão), depois metrô, depois ônibus integrado. e só então chegamos por lá.

é no alto de uma comuna, então a vista é aquela linda e arrepiante vista de sempre em medellín. o parque biblioteca é como um complexo. tem um parque grandão ao redor (tá, ok. talvez seja só uma praça de concreto), tem um café, tem um deck gigante, tem diversas salas, e um monte de estantes enfileiradas. os computadores são em áreas de estudo individuais, e tem escadas em todos os lados, que levam pra lugares que não cheguei a conhecer.

deve ser no mínimo vinte vezes maior que a biblioteca onde eu trabalho. tem exposições, murais, painéis, instalações e obras de arte. tem vários lugarzinhos pra sentar e ficar de boa. o parque biblioteca dela tem uma arquitetura linda. ele é todo bonitão e super agradável de passar o tempo.

pensei: nossa, como ela teve sorte de estar aqui.

assim que esse pensamento bobo apareceu na minha cabeça, também apareceram os rostinhos lindos do cristian, do mateo e do kevin.

pensei: nossa, como eu tenho sorte de ter esses pequenos na minha biblioteca.

minha biblioteca é pequena. pequeníssima. não tem estrutura. não tem arquitetura nenhuma. é um prédio retangular reto, de dois andares. a sala infantil não é cheia de coisas legais. são pouquíssimas estantes e livros bem reduzidos. não tem espaço pra colar as coisas na parede. não tem muita presença por lá.

mas tem liberdade. tem liberdade para transformarmos aquele lugar.

tem meus pequenos. que conseguem iluminar e melhorar qualquer ambiente.

tem as outras quatro funcionárias que ficam pela biblio. e que estão começando a entender nossa missão.

é um mundo pequeno, mas que está cheio de esperança. e quando tem esperança, nada é pequeno.

nada é pequeno, nem nada é comparável.

quem faz a nossa sorte, somos nós. porque existe sorte em cada movimento.

em cada resolução. em cada consequência.

sorte é o resultado de ver as coisas com amor.

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mais uma sementinha.

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não consigo respirar. não consigo manter o olhar fixo em nenhum ponto.

meu coração bate forte.

desço o morro da biblioteca onde estou trabalhando um pouco atordoada.

meus joelhos tremem. to andando mais rápido do que deveria andar. e não consigo pensar em nada além da tarde de hoje.

a gente não tinha planejado nada. as outras intercambistas iam dar aula de inglês e Fernando e eu íamos apenas ficar planejando as atividades de semana que vem.

a nossa ideia era fazer na próxima terça-feira uma oficina de crachás. são muitas crianças, e é difícil lembrar do nome de todas. então faríamos algo leve e divertido (artístico e criativo) que também nos ajudaria no dia a dia.

enquanto preparávamos o material para a oficina, Kevin, um dos meninos que mais tenho contato, nos chamou para jogar “charada”.

recolhemos nossas coisas e fomos para a sala infantil. só que as crianças tinham desistido do jogo, porque aquela hora era a hora livre pra ficar no computador. então ficamos sozinhos na sala e continuamos nosso trabalho de recortes para os crachás.

eu comecei a fazer um crachá pra mim (e pra que eu pudesse usar como exemplo no dia da atividade). escrevi “isa” e coloquei alguns recortes de papeis coloridos que formavam a bandeira do brasil, da argentina e da colômbia.

não ficamos muito tempo sozinhos, porque logo apareceram cristian e mateo, dois de nossos fiéis escudeiros. eles se sentaram do nosso lado e quiseram fazer bandeiras de países também.

brasil, argentina, colômbia, e quando o cristian já tinha terminado a bandeira da alemanha apareceram mais algumas meninas querendo participar da atividade. eram meninas que nunca tinham participado ainda, mais carentes do que o resto do pessoal com quem eu tinha tido contato.

elas estavam acanhadas. apareciam e desapareciam da sala e só decidiram ficar depois de muita insistência nossa.

eu sabia que ia ter que lidar com elas de um jeitinho diferente. elas não eram livres e elétricas. precisavam de atenção integral, então tive que me dividir em várias.

enquanto estava ajudando as meninas, ouvi o cristian (que já tava fazendo bandeira do marrocos e da china) dizer “yo me divierto demasiado con los profes”.

juro que meu coração congelou nesse momento. além de ter sido uma tarde de muito aprendizado pros meus meninos (e até pra mim, já que eu não fazia ideia de como era a bandeira do panamá, por exemplo), foi divertido pra eles.

se foi divertido e gerou aprendizado, valeu a pena, não valeu? é o caminho certo que to trilhando, não é?

no fim, estávamos tão entretidos que quando a Señora Gladis nos disse que tínhamos 5 minutos pra arrumar a sala, tive um leve descargo de desespero e de adrenalina.

nenhuma das crianças queriam parar de fazer a atividade, e quando tiramos os papeis da mesa ouvimos manhas e birras. mas todos se comportaram e nos ajudaram a ordenar a sala.

eu saí da biblioteca com um sentimento que sinto de vez em quando no trabalho. é um sentimento de amor pelo que fiz, pelo que faço. de gratidão pelo dia.

na hora da despedida, teve mais do que os habituais beijos e abraços. as crianças estavam tão radiantes quanto nós. tinham amado o dia e poderiam ter ficado até meia noite por lá conosco.

ouvimos elas falarem “tchau profe” até descermos o morro inteiro. ouvimos “te quiero, profe” e nessa hora, o coração explodiu de gratidão.

nós fizemos mais do que o nosso papel por hoje.

não demos a aula para as crianças gostarem de como foi hoje.

demos uma aula para elas fazerem de tudo para voltar amanhã.

e o que me deixa mais feliz, é que conseguimos cativar novas crianças. cristian, mateo, emanuel, kevin são os de sempre. mas agora temos mais alguns no time.

mais alguns pra compartilhar coisas boas. mais alguns pra plantar sementinhas de sonhos e de esperança.

que todos continuem sonhando com brasil, argentina, colômbia, japão, marrocos, peru, panamá, china, alemanha, portugal…

e com todas as outras bandeiras que o pequeno coração deles permita sonhar.

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minha honeymoon.

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hoje foi o primeiro dia oficial do projeto que vim fazer aqui na colômbia.

se chama encyclopedia, e temos a função de fazer atividades em bibliotecas públicas de medellín.

o sistema de bibliotecas públicas da cidade é muito bom. foi uma alternativa criada para tentar solucionar o problema das drogas e das guerrilhas, que foi herdado da época de pablo escobar. levar cultura, arte, conhecimento e entretenimento para os bairros promove milhões de boas

hoje visitamos uma dessas bibliotecas.

pegamos o metro linha a até quase o último ponto. andamos, subimos escadas, descemos, andamos e esperamos até que o ônibus que precisávamos subir chegasse.

o caminho de ônibus foi longo. sobe morro, desce morro, entra em beco, sai de beco, sobe, e desce mais um pouco. até que chegamos no ponto em que tínhamos que descer.

andamos mais um pouco, entramos no meio de um matinho, e chegamos na tal biblioteca.

fomos recebidos com um caloroso bienvenidos, e a biblioteca dava de dez a zero na biblioteca pública da minha cidade.

talvez ela fosse bem menor, mas era aconchegante demais. e tudo muito organizadinho e cheio de fé, carinho, esperança e amor.

as bibliotecas são com um tratamento para as “doenças” da cidade. por isso, os colaboradores e os frequentadores de lá fazem tudo com o coração cheio de esperança e de paixão.

é lindo de ver.

tivemos uma palestra com dois intercambistas que já estavam antes no projeto. uma brasileira e um cara do panamá (panamaense? panamenhos?). eles estavam quase no fim do projeto, e nos deram alguns tips sobre o intercâmbio.

a emoção deles, a energia positiva, o sentimento que eles nos passaram de transformação, de realização… ahh… a única coisa que penso é que eu to no caminho certo.

e como eles mesmos nos falaram, esse meu pensamento é porque eu to em honeymoon. apaixonada pela experiência, pelas pessoas, pelo projeto, pelas esperanças que tenho, e pelas espectativas.

isso vai passar uma hora ou outra. dias não tão fáceis e de conto de fada ainda vão aparecer por aí.

e que apareçam!

porque é com os problemas vindo que nos enchemos mais ainda de esperança e que as coisas incríveis tem lugar na nossa vida.

que seja lindo e que eu continue encantada pelo projeto.

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acomodar.

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hoje comecei a reconhecer as coisas.

fiz o caminho de volta pra casa duas vezes. (casa, no caso, é o hostel onde passei duas noites). e pelo caminho, fui reconhecendo as coisas.

eu reconheci o food truck de helados con piernas com layout fofo. reconheci a casa de aluguel de trajes de festa. o balão em forma de dente de um dentista desejando boas festas. uma ou outra igreja. um grafite na parede. uma casa de telhado baixo no meios de dois prédios médios.

talvez ninguém entenda o quanto isso é importante. o quanto reconhecer as coisas nos torna parte de um mundo.

sem reconhecer, eu sou apenas uma visitante. de passagem. que logo vai embora.

reconhecendo, sinto que faço parte daqui. a cada cheiro, imagem, caminho, palavra, costume que eu reconheço me torno mais parte deste mundo colombiano.

faz dois dias e meio que eu to aqui. e sinto meus costumes mudando.

a gente se adapta. se adapta fácil. eu então… geminiana que nem sou, preciso de pouco tempo pra me adaptar.

meu corpo ainda responde ao fuso horário do brasil.

acordar as seis da manhã todos os dias, achando que já são nove horas… chegar às dez da noite com o corpo derrotado como se fosse uma da manhã… talvez precise de mais do que dois dias pra resolver isso.

mas eu já decorei os últimos pontos antes de chegar no meu e decorei os nomes das estações de metro perto daqui. já me acostumei com o cheiro de fritura na rua. já me acostumei com o câmbio da moeda.

já acho normal misturar português, espanhol e inglês em uma mesma conversa. e quando vou dar rolê com o pessoal é instintivo fazer uma chamada mental pra ver se todos estão presentes.

na verdade, isso que é o legal da vida. a gente é mutável, adaptável. a gente se acostuma, se transforma e se acomoda a cada lugar.

mas o que não pode é justamente isso.

se acomodar.

que meu mundo nunca fique cômodo.

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hostel star wars coffee

20160115182604a wifi livre de guarulhos só é livre por sessenta minutos.

o que não serve pra nada pra quem vai passar mais de doze horas no tédio absoluto nesse aeroporto, que, por sinal, é o maior do brasil.

por sorte – ou talvez simplesmente pelo pensamento capitalista estadunidense – a starbucks tem wifi de graça.

e além de wifi de graça, tem sofás muito gostosos.

e tomada.

e café – não tão bom, mas ainda assim, café.

e muffins.

e donuts.

durante minha noite em guarulhos fiz alguns vais e volta.

fui na starbucks. dei alguns roles pelo aeroporto. apareci por lá de novo. fui dar mais rolês.

e quando o sono e o tédio e o desconforto estavam realmente me comendo viva, decidi voltar pra lá e ficar por lá mesmo.

melhor cantinho ❤

logo em seguida apareceu um cara, com a mesma cara de cansado que eu. e me senti um pouco mais segura, deitei a minha mala no chão, apoiei meus pés em cima, e soltei a minha mochila um pouco mais longe de mim.

vendo que eu tava relaxando, o cara relaxou também. deitou a mala dele, apoiou os pés e soltou a mochila. por alguns poucos minutos, fomos cúmplices do nosso cansaço e da nossa gratidão um ao outro por estarmos ali.

foi então que chegou o bruno, um carioca, que mora no rio grande do sul e que tinha ido passar as férias em santiago.

vendo nosso momento de relaxamento, o bruno começou a puxar papo se nós também iríamos passar a noite no aeroporto.

todos nós estávamos na mesma situação. e um pouco mais longe haviam muitos outros loucos que passaríam a noite nessa rodoviária aérea também.

apesar de o tempo ter demorado horrores pra passar, a gente tinha muito papo. bruno, guilherme, leiz (um amigo do bruno) e eu já tínhamos viajado pra alguns lugares em comum.

tínhamos papo, contamos histórias, tínhamos pub crawls, bares e baladas para recomendar. entramos em papo sobre música, reggaeton. sobre sonhos. sobre famílias. sobre aluguel de colchões infláveis em aeroportos.

eles conversaram sobre jogos e séries. eu dormi, sentindo-me protegida e  segura em um lugar que não é lá o mais seguro do brasil.

trocamos whatsapp antes de sabermos o nome um do outro.

puxamos papos com outras pessoas que estavam por perto. zoamos o nosso cantinho como “hostel star wars coffee”.

e depois de quatro ou cinco horas compartilhadas, cada um foi pro seu canto. desconhecidos. com a certeza de que provavelmente nunca mais vamos nos ver na vida. mas com uma leve e tranquila lembrança compartilhada.

e pensando bem, nossas relações são basicamente isso, não são?

lembranças compartilhadas.