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ela.

porque tava na hora

passam diversos montes e relevos. de cima, não consigo dimensionar se são grandes ou pequenos. será que é ela? não pode ser, o avião passou rápido demais pra ser ela.

tento me policiar para não dormir. é difícil. estar em um avião é como se eu tomasse um litro de sonífero. só o querido decolar, e já era.

mas hoje não posso dormir. hoje vou passar por ela.

em meio a lanchinhos dados pela companhia aérea e desenhos um tanto pornográficos no meu caderninho, dou uma ou outra olhadela pela janela. em uma dessas olhadas, percebo uma tira fina de montanhas, lá no fundo. comprida, rochosa, nevada. bem lá no horizonte mesmo. é ela! só pode ser.

por estar só no horizonte, sinto-a distante de mim. como se alguém me contasse de quando passou por ela. e não como se eu realmente estivesse por lá. vendo. vivenciando. mas tudo bem. tento conter a pequena decepção, afinal… é ela!

“en diez minutos estaremos sobrevolando la cordillera de los andes”

opa.

agora as coisas mudaram um pouco de figura. mesmo com o sono me matando viva, eu tenho que me manter acordada por mais dez minutos. não tenho certeza se a vista vale mesmo a pena, ou se vai continuar me decepcionando. mas tenho que pagar pra ver. ninguém tinha me falado de como era sobrevoar por ela. mas concluí sozinha que deve ser bacaninha. deve ser. não coloquei expectativas, mas imaginei que devia ser mais do que os pedaços de montanhas que via lá longe.

vamos ver.

o avião está cada vez mais próximo. e a cada segundo que ele chega perto, eu acredito menos no que estou vendo. é como se eu estivesse entrando em um mundo paralelo. sabe aqueles filmes de ficção e fantasia? uma outra dimensão, um outro universo. algo como nárnia.

no segundo em que o avião entra totalmente sobre ela, eu me transformo. eu a sinto em mim. vivencio a cordilheira dentro de mim. é como se eu fosse uma das personagens dos livros fantásticos que eu lia quando criança. uma personagem desbravando aquele tal do mundo paralelo. novo e particular.

não existe como explicar a sensação que sinto nesse vôo. talvez – muito provável – isso seja apenas algo que eu sinto e não um sentimento geral de quem passa por ela. mas o sentimento é tão esquisito, tão novo, que me sinto apaixonada.

por ela.

meu primeiro amor lésbico talvez. e se todo amor lésbico me causar o que estou sentindo agora, tchau para os homens. porque tudo que quero, tudo que penso, tudo que sinto agora é sobre ela. e não quero que esses segundos, só meus e dela, acabem.

mas passou.

acabou.

volta?

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